Porquê procurar terapia de casal?
Muitas pessoas questionam-se quando é o momento certo para procurar ajuda profissional para a sua relação. Muitas vezes, só depois de anos de sofrimento desnecessário tomam essa decisão, porque acreditam que, com esforço suficiente, conseguirão resolver as dificuldades sozinhos.
A verdade é que a terapia de casal não é apenas para momentos de crise extrema. Pode ser uma oportunidade única de crescimento mútuo, de tomada de consciência das dinâmicas da relação e dos padrões de interação que deixam o casal preso em comportamentos que não funcionam e que, ao longo do tempo, conduzem ao afastamento emocional e à dor da falta de conexão.
Quais as principais dificuldades que os casais enfrentam?
Apesar de todos os mitos propagados pelos filmes de Hollywood, aquela ideia de que amar é algo fácil e que não requer trabalho é completamente irrealista. Amar outra pessoa, partilhar um projeto de vida, objetivos e sonhos, ao mesmo tempo que se gerem questões práticas como estabilidade financeira, educação dos filhos ou relações com familiares e amigos, é um desafio complexo.
Cada pessoa cresce num contexto diferente, com modelos de relacionamento distintos e experiências emocionais próprias. Assim, cada membro do casal traz para a relação expectativas, medos e formas de reagir que podem ser muito diferentes. Conseguir integrar estes dois universos exige capacidade de negociação, empatia e adaptação. Quando existem experiências traumáticas ou feridas emocionais anteriores, este processo pode tornar-se ainda mais difícil.
De forma geral, existe uma dificuldade central que está presente na maioria dos problemas conjugais: a desconexão emocional. Essa desconexão pode manifestar-se de várias formas:
– Conflitos frequentes e ciclos repetitivos:
Quando os desentendimentos se tornam constantes, muitos casais começam a reconhecer que as discussões seguem sempre o mesmo padrão: um critica, o outro defende-se ou afasta-se; um insiste, o outro fecha-se; um protesta, o outro evita. Estes ciclos negativos repetem-se tantas vezes que passam a definir a relação.
Com o tempo, os parceiros deixam de se sentir compreendidos e passam a interpretar o comportamento do outro como falta de amor, desinteresse ou rejeição. O conflito deixa então de ser apenas sobre o tema discutido e passa a refletir uma luta mais profunda por conexão e segurança emocional.
– Dificuldades de comunicação e compreensão:
Muitos casais acreditam que o problema principal é “não saber comunicar”. Na realidade, o que muitas vezes acontece é que as emoções mais profundas não estão a ser expressas.
Aquilo que pode parecer irritação, crítica ou frieza pode esconder sentimentos de medo, insegurança, solidão ou necessidade de proximidade. Quando estas emoções não são reconhecidas ou partilhadas, os parceiros respondem às reações superficiais do outro, sem perceber o que realmente está por trás delas. Isto gera mal-entendidos, ressentimento e a sensação de que “não somos vistos ou compreendidos”.
– Distância emocional ou perda de intimidade:
Outra dificuldade comum é a sensação de afastamento emocional. Mesmo vivendo juntos, muitos casais relatam sentir-se sozinhos dentro da relação.
A intimidade emocional diminui, as conversas tornam-se mais superficiais e os momentos de proximidade tornam-se raros. Pequenos gestos de afeto ou de apoio deixam de acontecer e instala-se uma sensação de insegurança no vínculo. Quando o sentimento de ligação ao parceiro parece ameaçado, podem surgir desconfiança, tristeza, medo ou raiva.
– Eventos traumáticos ou transições difíceis:
Certos acontecimentos de vida podem colocar uma enorme pressão na relação. Experiências como perdas significativas, doença, infertilidade, nascimento de filhos, mudanças profissionais ou mudança de país exigem adaptações profundas.
Mesmo casais que tinham uma relação estável podem sentir dificuldades nestes períodos. O stress acumulado pode aumentar a irritabilidade, diminuir a disponibilidade emocional e fazer emergir medos ou vulnerabilidades que não estavam tão presentes anteriormente.
O que esperar da Terapia Focada nas Emoções
A Terapia Focada nas Emoções (TFE) é uma abordagem cientificamente validada que parte da ideia de que os seres humanos têm uma necessidade fundamental de ligação emocional segura.
Nesta abordagem, compreende-se que muitos conflitos conjugais não são realmente sobre o conteúdo das discussões – dinheiro, tarefas domésticas, educação dos filhos -, mas sobre algo mais profundo: a necessidade de sentir que o outro está disponível, responsivo e emocionalmente presente.
No fundo, muitos conflitos são tentativas de responder a perguntas emocionais essenciais como:
- Estás aí para mim?
- Posso contar contigo quando preciso?
- Sou importante para ti?
Quando a resposta a estas perguntas parece incerta, surgem protestos, críticas, afastamento ou silêncio defensivo. Estes comportamentos são muitas vezes tentativas – ainda que pouco eficazes – de proteger o vínculo.
O papel do terapeuta de casal
Na Terapia Focada nas Emoções, o terapeuta ajuda o casal a:
- Identificar os padrões de interação negativos que causam dor e afastamento;
- Compreender as emoções e necessidades profundas que estão por trás desses padrões;
- Criar um espaço seguro onde cada parceiro possa expressar vulnerabilidade sem medo de crítica ou rejeição;
- Desenvolver novas formas de responder um ao outro com empatia, presença e apoio emocional.
Ao longo do processo terapêutico, os parceiros começam a reconhecer que não são inimigos um do outro, mas sim que ambos estão presos num ciclo relacional que alimenta a distância entre eles.
O que pode esperar da terapia de casal
Com o avanço do processo terapêutico, muitos casais experienciam:
- Redução dos ciclos repetitivos de conflito;
- Maior compreensão das emoções e necessidades do parceiro;
- Aumento da intimidade emocional e da sensação de segurança na relação;
- Maior capacidade de expressar vulnerabilidade e pedir apoio;
- Desenvolvimento de formas mais saudáveis de lidar com conflitos e dificuldades futuras.
O objetivo da terapia não é eliminar todos os conflitos- isso seria irrealista e desnecessário- mas sim ajudar o casal a transformar a forma como se relaciona durante esses momentos, fortalecendo o vínculo em vez de o fragilizar.
Em síntese
A terapia de casal, especialmente quando baseada na Terapia Focada nas Emoções, não procura apenas resolver problemas superficiais. O seu objetivo é restaurar a ligação emocional, promover empatia e reconstruir um sentimento de segurança dentro da relação.
Cada sessão é uma oportunidade para compreender melhor o outro, para reconhecer as próprias emoções e para aprender novas formas de estar na relação.
Se sente que a sua relação está presa num ciclo de conflito, distância ou incompreensão, procurar ajuda profissional pode ser o primeiro passo para reconstruir uma ligação mais segura, profunda e satisfatória.
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Psicóloga Clínica e Diretora Clínica da Psicoflex, é formada em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade de Coimbra, com especialização em Terapias Cognitivo-Comportamentais de Terceira Geração, Terapia de Casal e Sexologia Clínica. Com experiência em diferentes contextos de intervenção e ao longo de várias fases do ciclo de vida, trabalha sobretudo com perturbações de ansiedade, humor e sono, stress, trauma, dificuldades relacionais e questões ligadas à sexualidade. A sua prática integra o modelo cognitivo-comportamental com abordagens como ACT, Mindfulness e Terapia Focada na Compaixão, promovendo flexibilidade psicológica e uma vida mais plena, flexível e significativa.
- Maria João Varela
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